"[...]
Na
primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"
Há
prisões que são mais que paredes e celas. Há prisões que não são concretas, e
por isso não há nada que possa concretamente ser quebrado.
No
seqüestro do corpo há um cativeiro localizado que precisa ser aberto. Já no seqüestro
do ser os cativeiros não possuem localização para que possamos chegar pela
força de nossos pés. Trata-se de uma prisão mais sutil, mas nem por isso menos
cruel.
É
importante termos claro que o seqüestro do corpo é uma realidade menos comum, mas
o seqüestro do ser é um fenômeno que há todo momento acontece em nosso meio: ou
porque estamos presenciando alguém sendo levado de si, ou porque estamos
seqüestrando, ou sendo seqüestrados.
O
que podemos perceber é que a estrutura social em que estamos situados é
fortemente marcada pelas relações que seqüestram.
É seqüestro da ser todo o processo que
neutraliza e impede o ser humano de conhecer-se, passando a assumir uma postura
ditada por outros. É sequestro da ser a projeção da vida humana em metas
inalcançáveis, costurada à mentalidade de que as pessoas são perfeitas e que há
sempre um final feliz reservado, pronto para chover do céu sobre nossas
cabeças.
Mas é também sequestro da ser a projeção da vida humana a partir de
metas rasas, em que a mediocridade é a regra a ser considerada e o pessimismo
antropológico é a consequência.
É sequestro do ser a redução da experiência
religiosa ao horizonte histórico, dissociado de uma esperança que extrapole a
experiência do tempo, assim como também é sequestro do ser a experiência
religiosa que esquece o cheiro humano da dor, da desesperança e que se limita a
promessas de um céu futuro, sem implicações históricas.
É sequestro do ser cada vez que o coletivo prevalece sobre o
particular, massacrando-o em vez de incorporá-lo como parte irrenunciável. Mas
é também sequestro do ser cada vez que o sujeito é valorizado em detrimento de
uma multidão que perde a voz para que ele possa gritar sozinho.
É sequestro do ser quando alguém, no exercício de imaginar,
projeta o outro como personagem, e com ele estabelece uma relação baseada na
falsidade que despersonaliza e aprisiona. Jura a promessa de um amor eterno que
se desdobra em cruel forma de prisão.
É sequestro do ser toda relação de trabalho que seja marcada pelo
desrespeito à dignidade do trabalhador, forçando-o a se tornar mero mecanismo
de produção, desconsiderando sua condição de ser humano que merece descanso e
remuneração justa.
É sequestro do ser cada vez que, no
processo educacional, as crianças são submetidas à pedagogia do medo e o
aprendizado se torna um fardo, deixa de ser um desejo.
É sequestro do ser cada vez que o sujeito é
desconsiderado como organismo vivo, colocado na condição de mecanismo, objeto
manuseável.