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quinta-feira, 2 de abril de 2015

SALMO 44

Num mundo caído como este Deus sempre age fazendo alternâncias de estações na vida. Somente tais “estações”, com suas variações, podem nos manter sadios.

Prosperidades, seguranças e poder não promovem bens duradouros para a alma.

Para poder dizer “tudo posso Naquele que me fortalece”, o ser humano tem que conhecer a Deus no “tudo” que implica existir.
Tem que ter experiência de abundancia e de escassez; de conforto e de desconforto; de poder e de fraqueza; de boa fama e de injúrias; de honra e de vergonha; de alegria e de luto; de construções e de desconstruções!

Somente nessa variedade e nessas alternâncias é que o coração se liberta de si mesmo e das circunstancias, e passa conhecer a Deus em tudo.

O salmo 44 nos apresenta essa variedade de estações.
I. Ele começa onde tudo começa na vida humana: no passado (1-8).
Ó Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, nossos pais nos têm contado os feitos que realizaste em seus dias, nos tempos da antigüidade. Tu expeliste as nações com a tua mão, mas a eles plantaste; afligiste os povos, mas a eles estendes-te largamente. Pois não foi pela sua espada que conquistaram a terra, nem foi o seu braço que os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz do teu rosto, porquanto te agradaste deles. Tu és o meu Rei, ó Deus; ordena livramento para Jacó. Por ti derrubamos os nossos adversários; pelo teu nome pisamos os que se levantam contra nós. Pois não confio no meu arco, nem a minha espada me pode salvar. Mas tu nos salvaste dos nossos adversários, e confundiste os que nos odeiam. Em Deus é que nos temos gloriado o dia todo, e sempre louvaremos o teu nome.

Talvez essa seja a razão pela qual os “maiores e mais explícitos” cuidados de Deus por nós se manifestem no início da jornada de fé.

Deve ser algo parecido com o que acontece aos bebês. Necessitam de cuidados totais, até que comecem a ser estimulados a engatinhar, andar, correr, e depois a cuidarem de si mesmos; recorrendo aos pais somente quando a limitação se estabelece como fato intransponível.

Todos os que conhecemos a Deus como amor e redenção temos muitas histórias para contar acerca desses livramentos que Ele nos fez; à nós e aos nossos pais.

O salmo, portanto, recorre a tais dias, evoca tais lembranças, alimenta-se da memória desses cuidados divinos. Pois é assim com a alma.
II. Do Passado ele nos conduz ao Presente: onde tudo está acontecendo (9-16).

Mas AGORA nos rejeitaste e nos humilhaste, e não sais com os nossos exércitos. Fizeste-nos voltar as costas ao inimigo e aqueles que nos odeiam nos despojam à vontade. Entregaste-nos como ovelhas para alimento, e nos espalhaste entre as nações. Vendeste por nada o teu povo, e não lucraste com o seu preço. Puseste-nos por opróbrio aos nossos vizinhos, por escárnio e zombaria àqueles que estão à roda de nós. Puseste-nos por provérbio entre as nações, por ludíbrio entre os povos. A minha ignomínia está sempre diante de mim, e a vergonha do meu rosto me cobre, à voz daquele que afronta e blasfema, à vista do inimigo e do vingador.

Uma existência que acontece sem a experiência da limitação haverá de se corromper. Daí, a mesma Graça que proveu libertações no passado, revelando-nos quem Deus é..., agora nos conduz na perspectiva de nos ajudar a discernir quem somos. 

E tal processo não se manifesta quando o homem está revestido de poder e segurança, mas apenas quando ele se conhece na limitação e na impotência. Primeiro ele tem que se conhecer na fraqueza (9-11). Sem a experiência da incapacidade pessoal para prover seu próprio livramento, o coração é forçado a confiar e a depender. 

Depois vem a estação do conhecimento do desvalor pessoal (12). É quando a pessoa olha para o que está acontecendo com ela e não entende a razão do “negócio”. Como pode ser que aquele que foi objeto de tantos cuidados, agora tenha que se ver vendido por nada? Que lucro tem Deus com minha calamidade?—é a questão da hora. Então chega a vez de se conhecer a vergonha (13-16). 

Os vizinhos reclamam que sua presença desvaloriza a vizinhança (13). A honra anterior dá lugar às brincadeiras e ao escárnio (14-16). O indivíduo tem que encontrar em si um valor que sobrepuje o esmagamento de desvalor que sobre ele se impõe socialmente: de fora para dentro, portanto.

III. Do Passado que revelou a Graça de Deus, tem-se que aprender a Graça de Deus também como um Presente que não nos honra, a fim de que o indivíduo tenha a chance de projetar, em fé, o Futuro do Presente e o Presente do Futuro (17-26).

Tudo isto nos sobreveio; todavia não nos esquecemos de ti, nem nos houvemos falsamente contra o teu pacto. O nosso coração não voltou atrás, nem os nossos passos se desviaram das tuas veredas, para nos teres esmagado onde habitam os chacais, e nos teres coberto de trevas profundas. Se nos tivéssemos esquecido do nome do nosso Deus, e estendido as nossas mãos para um deus estranho, porventura Deus não haveria de esquadrinhar isso? pois ele conhece os segredos do coração. Mas por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; somos considerados como ovelhas para o matadouro. Desperta! por que dormes, Senhor? Acorda! não nos rejeites para sempre. Por que escondes o teu rosto, e te esqueces da nossa tribulação e da nossa angústia? Pois a nossa alma está abatida até o pó; o nosso corpo pegado ao chão. Levanta-te em nosso auxílio, e resgata-nos por tua benignidade.

Agora tem-se que aprender a ser de Deus por Nada. Chegou a hora de praticar a confiança e a fidelidade apesar da aparente infidelidade de Deus (17-19). Nessa estação aprende-se a Devoção perante o Absurdo (20-22). E, então, mergulha-se na maior de todas as esperanças: a fraqueza que dá ORDENS a Deus (23-26).
Deus recebe a ordem do fraco, esmagado, perplexo, que nada sabe e nada entende, mas que sabe que nada sabendo, mesmo assim Deus sabe por ele.

Nessa hora pode-se não estar entendo Nada, mas entende-se Nada em Deus.
Este é o último estágio da fé e do crescimento.
Ora, foi exatamente o espírito desse salmo que levou Paulo ao clímax de sua confiança. Afinal, Romanos 8: 31-39 se inspira e quanto também cita o salmo 44.

Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica! Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito no salmo 44: Por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.

Assim, aprendemos no salmo 44 e em sua aplicação cristã feita por Paulo, que os mais que vencedores nesta vida são os que não temem experimentar as alternâncias das estações da soberania terapêutica de Deus em suas existências.

Esses são os que não podem mais ser abatidos pelo Absurdo da vida!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

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NAVALHAS DA GLÓRIA
Paulo disse que deveríamos nos gloriar na esperança da glória de Deus, e, também, nas próprias tribulações, sabendo nós do bem, do poder de forjamento e de produtividade espiritual e de caráter de fé, que o triturador de vaidades e de falsas importâncias que a tribulação/provação gera como beneficio para o ser.
De fato Paulo estava nos apresentando a experiência das navalhas da glória.
O forjamento de um ser humano glorioso, em um mundo de ilusões, só pode ser feito [sem o poder da amargura filosófica], pela via das navalhas da glória, que são as tribulações desmontadoras das fábricas de ilusões; e que apenas adocicam o ser e o iluminam com a alegria da verdade/realidade, no caso de ele interpretar tudo como obra do Escultor; embora, ele mesmo, o homem, precise se oferecer, em amor, como matéria para o esculpir; visto que, no processo existencial, o homem não seja inanimado, e, por isto, tenha que ser matéria viva e auto-ofertante ao Escultor — como se a pedra ou a madeira dissessem ao Escultor: Eis-me aqui. Me esculpe. Ofereço-me... Mudo de posição. Mudo de textura. Mudo conforme Seu desejo. Tu és o Escultor [ou Tapeceiro]. Eu sou uma matéria parceira da transformação e na arte do Teu amo;, e o faço deliberadamente, cada dia mais.
As navalhas da glória são feitas de sabedorias divinas aplicadas a circunstancia do homem, somadas o que, no homem, pela Graça Livre e pela Graça da decisão na Graça feita pelo homem — formem um termo/único de poder mutante; e que não comporta o dualismo Escultor ou Escultura Sujeita de seu próprio destino; tanto quanto não comporta o problema: Tapeceiro ou Parceiro.
Não! Tudo provém de Deus. Porém, a provisão de Deus é que o Tapeceiro conte com a Parceria do homem no ofertamento de si mesmo como parceiro e cooperador de Deus no trabalho de sua caminhada de glória em glória.
Não existe este dilema. Somente existe em quem pensa a vida com categorias fixas; tipo: se Deus é o tapeceiro, então eu sou um tapete inerte; ou, então: se Deus é o Escultor, então, eu sou um escultura inerte; sempre a espera do desejo Dele, de esculpir...
Mas não é assim no Evangelho.
Deus é vivo; e a oferta é viva também...
Este é o culto racional:
A entrega do homem vivo ao Deus vivo — por amor; aceitando o que não entende ainda; e assumindo conscientemente tudo o que já entende; fazendo-se, de um lado, obra e feitura de Deus, e, de outro lado, oferecendo-se como sujeito deliberadamente ativo na disposição de cooperar com Deus, andando conforme a Vontade revelada de Deus.
Enquanto a gente não aprende isto pela experiência das navalhas da glória, da esperança da glória eterna vivida na ambigüidade da dor e da tribulação, no máximo a pessoa aceita isto como um bom argumento a ser usado na ajuda aos que estejam com tal problema ou conflito.
Antes das navalhadas da glória tudo isto é apenas estoicismo ensinado com máscara cristã. Seria uma espécie de Zen Fé Cristã.
O caminho da glória, portanto, segundo Jesus, Paulo e todos os apóstolos — é a vereda estreita da glória forjada como navalhada na existência.
No fim cada cicatriz fica romântica, cada ferida se torna poesia, toda dor converte-se em canção de ninar, e toda perda se torna o maior lucro.
No fim, cada marca é de Cristo em nós.
Alguém quer ainda discutir o processo?...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015



O xadrez como metáfora da vida


Estava andando no parque e me detive ao ver um senhor de idade e seu neto (assim o entendi), jogando uma partida de xadrez. Pareceu-me entretanto, que aquilo era mais que um simples jogo. A cada lance havia um dialogo implícito sobre a vida.
De um lado o experiente jogador, cauteloso, ponderado, prudente e tranquilo por ter jogado inúmeras partidas vida afora. Cada jogada era precedida de um saboroso momento de contemplação de todo o tabuleiro.As possibilidades eram descobertas como quem garimpa a pedra dos sonhos, e a cada descoberta um sorriso sereno.
Do outro lado o jovem jogava com impetuosidade, rapidez, impaciência e buscava finalizar o jogo o mais rápido possível. Provavelmente aquele jovem ainda não havia aprendido que a beleza do jogo está em jogar.
O xadrez pareceu-me uma metáfora da vida onde o tabuleiro é a dimensão da história, cheia de possibilidades, no entanto não se joga sozinho. É preciso do outro. Se assim não for o jogo perde a graça. Na vida também estar sozinho não tem a menor graça.
É preciso estar com o outro no tabuleiro e aprender a negociar os espaços e as mexidas.
Os dois jogadores tem as mesmas peças e cad peça tem o seu papel. Assim ocorre também na vida. Todos tem as mesmas possibilidades. Mas o que fazemos com elas é o que faz a diferença.

As peças, por sua vez carregam em si atributos próprios, tanto na natureza de seus movimentos, quanto na posição que ocupam. Rei e Rainha estão juntos, lado a lado, e é aí o o melhor lugar. O rei é a peça mais valiosa, a rainha a mais poderosa.
Ambos se complementam. Quando afastados sem justificativa estratégica ficam vulneráveis.
As torres representam a fronteira do espaço, estabelecem o limite do jogo e guardam o reino, elas representam a casa, o nosso patrimônio.
Os cavalos são a força do jogo. Pulam obstáculos, superam dificuldades e estão um do lado do rei e outro do lado da rainha. Eles representam nossas habilidades e competências.

Os bispos revelam muito sobre a vida. Um segue a carreira branca e outro a carreira preta, eles simbolizam a dimensão da espiritualidade. Os bispos são os primeiros a defender o reino, pois estão a serviço da vida e nos fazem olhar para além de nós mesmos.
Na linha da frente estão os oito peões, que apesar de serem considerados peças sem importância eles no final fizeram a diferença entre vencer e ser vencido.

Os peões ensinam que o caminho é sempre para frente. Avançar e não deixar que os adversários avancem é a sua meta. Isso nos ensina a cuidar das coisas simples, a entender que uma pequena peça é o diferencial nas grandes conquistas. Às vezes temos a sensação de que somente as coisas grandiosas, sofisticadas, caras, complicadas é que são necessárias e essenciais. Os peões nos mostram que no final é a simplicidade que faz a diferença.
E por fim não há vitórias sem perdas e sem esforços. No jogo de xadrez como na vida, a vitória tem o seu preço e exige sacrifícios.