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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Um marujo em alto mar

Nas coordenadas 37 graus a sudoeste e 20 graus a nordeste, mar alto, navega um homem já adiantado em idade.
Desatento ao açoite do vento, ele medita. Está só. Vez por outra seus lábios se movimentam. A barba, grisalhada de três dias, mostra há quanto partiu de um porto seguro. Ele conversa com o nada. Mal se dá conta de que ninguém ouve o monólogo. Mas ele insiste, pois precisa falar a si mesmo.
Na aspereza das ondas, o viajante sabe: o oceano em que se navega para o interior de si é mais vasto do que o azul infindável que se alonga por todos os lados.
O sol arde, inclemente. O único tripulante do veleiro parece não se importar com a falta de norte. A pino, com raios perpendiculares, o sol nega a existência de lados. Na imensidão das águas desaparecem bifurcações, esquinas, encruzilhadas. Tudo o que é vasto não permite atalho ou caminho variado. As alternativas desaparecem. Qualquer opção surge como dever de seguir em frente. Tudo é, ao mesmo tempo, ocidente e oriente, norte e sul.
O marujo deriva? Não. Ele segue o curso do universo, que também se expande sem rota. Quem conhece o trajeto das galáxias? Aonde vão as estrelas?
O timoneiro ignora qualquer imperativo que a consciência sussurra. Na ausência de novo curso, ele pretende gastar o tempo em meditação. Devanear lixa as arestas agudas de um passado que insiste em não desaparecer – quinas que machucam feito saudade. Ele sabe que as pontas afiadas da saudade ferem como navalha.
E entre arriar a âncora da culpa ou seguir adiante, permitindo que a quilha do imponderável corte as águas, o capitão solitário da nau prefere deixar que a quilha cumpra o dever de rasgar o mar.
Súbito, o vento sopra com força. Uma tormenta se intromete, veemente, nos pensamentos soltos do marinheiro. Os arredores da embarcação se colorem de nanquim. O dia passa de incandescente a crepuscular. A noite se impõe, ligeira, fora de hora.
Resta ao velejador sair de seu estado contemplativo. Não há plano de fuga. É preciso improvisar. Ele encara a tormenta como se não tivesse experiência alguma. A sobrevivência se torna, então, guardiã de sua resiliência. De joelhos, ele procura empinar a vela – é preciso ser rápido; a borrasca pode rasgá-la de alto a baixo.
Uma melancolia, também súbita, vaza de seus olhos, pele e mãos trêmulas. (Vale lembrar: a tristeza dos marinheiros engana). Com as mãos feridas, o homem se reveste de obstinação. O semblante se torna arisco. Ele se agiganta. Da vaga espumejante, empluma-se uma nova Fênix.
Já não existe qualquer balbuciar nos lábios. Ele parou de sussurrar; o silêncio interior se torna necessário para virar matéria prima da ressurreição. Ao lutar, é preciso desdenhar da fúria dos raios e dos trovões. Dos ombros altivos, o navegador olha para cima, em busca de encontrar alguma réstia de luz vinda de fora.
Uma dor impensada, daquelas que assaltam os valentes, arqueia a suas sobrancelhas. Quem ousa encarar o imponderável se fragiliza. De resoluto, agora tem que enfrentar o assédio da fadiga. O mar crespo não dá trégua. A possibilidade de retornar ao porto se distancia e esperança passa a significar o dever de continuar. O salgado das águas se confunde com suas lágrimas, que por sua vez se misturam com o seu suor e apesar do gosto amargo que ficou na boca, ouve-se um grito: Continuarei.
O que dizer desse marinheiro anônimo? Deixe-o em paz, ele navega rumo ao seu destino.

quarta-feira, 22 de abril de 2015


Um cântico na agonia

O que você faria hoje, se soubesse que amanhã se encontraria preso a mais terrível e indescritível crise existencial? Se amanhã você se desse conta de que seu melhor e mais intimo amigo lhe houvesse faltado ao dever humano e fraternal de solidariedade? O que você faria se, de repente, aquela pessoa de quem você nem de longe desconfiaria, na qual você tanto investiu e que tanto usufruiu de sua cultura, seus afetos, inclinações e bens maiores otraísse?
O que você faria se a religião na qual você foi criado, em meio a qual foi
inspirado,dentro da qual foi instruído, subitamente, estabelecesse uma penalidade contra você?
Como você reagiria se, de hábito, se visse escarnecido, vilipendiado, com a honra enxovalhada, a dignidade exposta a uma situação de zombaria, motejo, galhofa e ironia? O que faria se fosse alvo de grave violência física, de um estupro, por exemplo, ou de uma surra absurda?
Qual seria a sua atitude se você tivesse certeza absoluta do que lhe aconteceria nos próximos dias?
Houve um dia, na vida de Jesus, quando, olhando adiante, ele só conseguia ver coisas absurdas e semelhantes a essas a que acabo de me referir. Seu dia seguinte seria o dia do Getsêmani; dia da depressão, da agonia; dia do encaramujar da alma; dia da vertiginosa descida à região mais abissal; dia do choro, gemido, solidão profunda.
O dia seguinte seria aquele no qual faltaria a solidariedade dos amigos. Ele gemeria, choraria, pediria, reclamaria; solicitaria apoio, companhia, mas os amigos estariam dormindo. Voltaria a eles e em vão questionaria: Não pudestes vigiar comigo? Não pudestes investir em mim sequer alguns minutos? Não conseguistes vencer o sono? Será que a minha dor é menos importante que o conforto e o sossego? Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar comigo uma hora? (Marcos 14:37).
O dia seguinte também foi dia de traição, dia no qual Judas Iscariotes discípulo, apóstolo, amigo, amado o troca por dinheiro. Judas que fora investido de autoridade, aquele a quem se descortina sonhar com os que sonham na intervenção de Deus na História; alguém aquinhoado com poder divino para realizar curas, prodígios, expulsão de demônios; aquele
que vivenciara realidades concretas da chegada e da demonstração do Reino.
É justamente ele que, em função de um bom negócio, trai a amizade; é esse Judas que beija e apunhala. É ele que dá um susto não um susto no coração de quem não sabia o que ocorreria, mas um susto naquele que, mesmo ciente do que iria suceder, reserva-se, ainda assim, o direito de
enfrentar cada momento da vida como cada momento da vida, com seus temores, sonhos e ambigüidades.
O dia seguinte é o dia da negação, negação de um dos melhores amigos, amigo que diante de uma situação pública afirma jamais tê-lo conhecido, não ter com ele a menor relação, não guardar a lembrança de nenhum encontro; não haver história entre eles, hipótese alguma de cumplicidade. Amigo que declara: Não sei quem é esse homem; jamais o vi, nunca lhe ouvi o nome; tampouco andei com ele. Amigo que nega a fraternidade, o
compromisso, a paixão e o sonho comum.

terça-feira, 14 de abril de 2015




BAILE DE MÁSCARA


Soren Kierkegaard certa vez disse que a vida é um baile de máscaras.
Ele sabia que este era o escudo atrás do qual as almas se escondiam de si mesmas, e, assim, tentavam ocultar suas faces também para a percepção dos demais.

 A maioria quer ser famosa, mas poucos querem ser conhecidos!

Ora, usar máscaras, para muitos, não passa de truque, de um direito, de uma opção: ser ou não ser; mostrar ou não mostrar; como se tal bravata contra o próprio ser pudesse passar sem punição.

Para muitos, esconder-se atrás das máscaras é apenas um questão de proteção ou de diversão inexaurível e viciante.
Sim, acaba virando um vício do ser, a tal ponto que sem as máscaras muitos homens não suportam e morrem.

Assim, para a maioria, sem o personagem, acaba a pessoa.
Talvez esta seja a razão pela qual até agora ninguém conseguiu conhecer você, pois toda revelação que você faz de “si mesmo”, é sempre uma ilusão.
Você não sabe quem você é, mas apenas sabe qual deve ser a sua imagem, a sua máscara.
Nesse caso, sua mais ardente e compulsiva tarefa na existência consiste em preservar seu esconderijo. E, sem dúvida, devemos admitir que muita gente desenvolveu tal capacidade de transformismo com a mesma habilidade dos polvos miméticos.

Sendo assim, diz Kierkegaard, “você é tão mais bem sucedido, quanto mais enigmática for a sua máscara”.

Quando a existência se transforma “nisto”, eu e você viramos de fato nada além de NADA.
Ou seja, passamos a ser apenas uma “relação com os outros”; e o que nos tornamos é unicamente em razão e em “virtude dessa relação”.

A moral é a grande máscara. E os moralistas são o que detém o maior número de disfarces. Entre esses, o mais danoso de todos é o estelionatário da religião, o picareta que come as almas dos homens.

Lobos mascarados de ovelhas! A maioria existe assim. Daí, para muitos, catástrofes que lhes roubem as “máscaras” os deixam em estado de desespero, visto que sem a máscara eles não possuem um rosto próprio, algo que a própria pessoa reconheça para si e como sua, e não apenas como um reflexo da imagem que os outros devolvem para você mesmo, supostamente acerca de quem você aparenta ser para eles.

Desse modo, você vende imagem, e se alimenta dela. Mas no dia em que as máscaras são tiradas, muitos não conseguem mais viver, pois neles não há uma vida própria, mas apenas uma existência fabricada para consumo no Baile de Fantasias, que é a existência da maioria.

”Você não sabe que vem a hora chamada “meia noite” na qual todos terão que lançar fora suas máscaras? Você crê realmente que a vida se deixará zombar para sempre? Ou talvez você pense que pode escapar um pouco antes da “meia noite” e fugir de tal hora? Ou será que você fica apavorado com essa idéia?”—pergunta o profeta.

Você consegue pensar em algo mais apavorante do que ter que viver tal “meia noite” em sua existência na Terra ou em qualquer outro lugar onde isto possa lhe acontecer?
Quem vive nesse Baile de Fantasias não tem idéia do que faz de mal à sua própria alma.
Não existe droga mais viciante do que a força compulsiva da “máscara”.

Aquele que se faz um com a mascara, faz-se um com o Nada, pois sua natureza vai se dissolvendo numa multiplicidade...e que acaba fazendo com que esse ser realmente se torne muitos.

Você pode se tornar semelhante àquele pobre Gadareno, ocupado por “infelizes demônios”; numa legião de falsas identidades, que não são suas identidades, e muito menos correspondem a você!

Os demônios habitam sob máscaras.
Por isto mascarados lhes são tão desejáveis residências.
Pobre do auto-enganado que pensa que as máscaras o salvarão!

Tire de sua cara a máscara. Do contrário, você poderá vir a perder a coisa mais sagrada e preciosa de um homem - o poder unificador da personalidade, e a capacidade abençoada de se tornar alguém que seja realmente você.